Experimentem, degustem, divirtam-se!

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Conheçam livros de ficção e fantasia com tempero nacional: Agridoce, Cítrico e Paganus.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Beltane

Olá!!
Aqui no hemisfério sul, muitos comemoram o Beltane. Uma festa pagã que reverencia a luz. Depois da escuridão do inverno, vem a luz, a vida, o fogo de Belenus.
Em meus livros o Beltane é sempre uma referência.
Na série Marina e os tesouros da Tribo de Dana, na saga Paganus (no novo projeto da saga o próximo livro se chama Beltane) e na série Crônicas do Reino do Portal.
O conto que posto aqui hoje, foi escrito para atender o pedido dos leitores das Crônicas do Reino do Portal, que me pediram que escrevesse sobre o personagem Dimitri, o Lorde das Sombras. Para eles, criei o conto que narra os momentos que precedem as Crônicas, quando a aldeia de Dimitri é invadida pelos romanos. Depois o adaptei para uma antologia. O conto Beltane foi publicado no primeiro volume da antologia Histórias Fantásticas (Editora Estronho, 2010), para a qual também fiz o prefácio.
BELTANE
O banho no rio era a forma de abrir uma festividade tão importante como o Beltane. Era o banho que os deixaria limpos para receber a luz de Bellenos e o ato se repetiria só no próximo ano. Para a ocasião, as mulheres preparavam um sabão especial, com ervas aromáticas e sementes adistringentes de uvas. Homens e mulheres eram mantidos separados até que os druidas entrassem carregando o “fogo” de Bel. Só então, a festividade estava oficialmente aberta. Então começariam as músicas, os jogos, as danças e no início da noite davam início aos ritos de fertilidade.
Se o sol aparecesse logo pela manhã já era sinal de que a festividade fora abençoada e que Bellenos aceitaria as ofertas de bom grado. Caso o dia amanhecesse chuvoso ou nublado, a tribo deveria se esforçar muito mais para conseguir atrair a atenção dos deuses e pedir seus favores. Todos acreditavam que o fracasso da colheita daquele ano acontecera por que o dia do Beltane anterior amanhecera completamente cinza. Mas hoje o dia amanhecera ensolarado indicando que os benefícios chegariam.
Dimtrix se lavara esfregando-se muito bem com o sabonete e então vestira sua túnica especial para o dia e até colocara as sandálias nos pés. Seus longos cabelos escuros foram trançados. Depois, os rapazes entravam na tenda cerimonial especialmente montada para aquele dia, onde havia hidromel com maçãs, ovos de patas e um preparado especial e secreto feito pelos druidas que diziam ser um importante remédio para garantir a fertilidade. E devia funcionar mesmo, pois Alistair fazia um filho a cada Beltane, às vezes dois e outros fora da época. Aquele era o primeiro ano que Arkell iria participar de todo o ritual, pois havia passado recentemente pelo ritual do abandono, etapa na qual o menino que desejava entrar para o círculo dos homens, era submetido a duras provas durante cinco dias. A fumaça com as ervas fortes tornava o ar de dentro da tenda irrespirável e os pulmões ardiam a cada tentativa de puxar o ar com força.
Dimtrix olhou para o pai sentado em um canto da tenda bebendo com dificuldade um chifre de hidromel, um de seus braços certamente estava inutilizado e ele acreditava que não havia poção dos druidas que fizesse o pai fertilizar uma mulher novamente. Aquilo levou um sorriso sarcástico aos seus lábios. Era demais para um homem como seu pai, não poder fertilizar uma mulher diferente a cada ano.
Arkell era só euforia e os irmãos o estavam enchendo de hidromel e incentivando-o a devorar os ovos de pata. Dimtrix agradecia aos deuses por já ter passado pelo seu primeiro Beltane. Alistair ajoelhara-se diante do pai que lhe passara a responsabilidade pela tribo naquela noite, mas ainda não lhe concedera o título de líder, aquilo só aconteceria quando o pai morresse.
Os homens começaram a se animar provocados pela fumaça dos candeeiros com ervas, regados a hidromel e motivados pelo canto das mulheres que vinha do outro lado do grande pátio onde elas também se preparavam. Dimtrix estava tonto e viu o irmão mais novo que se ajoelhava no chão e vomitava, enquanto um dos homens ria batendo em suas costas.
Então os tambores começaram a soar, o som ritimado e seco era como pancadas sistemáticas na cabeça. Os druidas se aproximavam. Arrumando suas túnicas, todos deixaram a tenda.
A vista faiscava quando Dimtrix deixou a tenda e o sol brilhava impiedoso do lado de fora. O irmão mais velho de Dimtrix, Ayon, vinha à frente do cortejo coberto pela túnica clara e carregando um pequeno braseiro com uma chama tímida nas mãos. O grupo de cinco druidas entoava um mantra convidando os deuses e aclamando Bellenos como o senhor daquele dia. Falavam do fogo, da luz e do poderoso sol...
No meio do grupo de sacerdotes, com passos vacilantes de uma pessoa embriagada pelas ervas mágicas, vinha Yvone. Seus cabelos dourados estavam tão brilhantes que parecia que um pedaço do sol havia caído sobre ela, sua pele pálida estava tão limpa que era possível imaginar seu perfume, usava uma túnica branca que ia até a canela e seus pés pequenos estavam descalços. Ela caminhava trôpega com os olhos baixos e os grandes cílios claros cintilavam com pequenas lágrimas. Mas ela não gritava, não resistia, não reclamava. Seria sacrificada assim que as fogueiras fossem acesas, portanto teria um dia inteiro de expectativa e no qual seria homenageada por todos os membros da tribo. Ela sabia que cabia a ela agradar a Bel com sua juventude, beleza e pureza.
Então toda a tribo se reuniu em volta do pátio central, homens de um lado, mulheres do outro, olhando-se cheios de luxúria e expectativa. Dimtrix aproveitava para descobrir qual garota os irmãos haviam separado para ele. Preferia que fosse uma de suas primas, de preferência das mais novas. Todas estavam com roupas limpas, os cabelos lavados e bem penteados com tranças de flores. A mãe de Yvone chorava baixo ao lado das outras filhas, mas acabaria se conformando até o final do dia.
Arkell, apertando a mão sobre o estômago, apoiou-se no irmão quase o derrubando. Apesar de ser quatro anos mais novo, Arkell era tão alto quando ele e bem mais forte, exibindo a constituição de um verdadeiro guerreiro, apesar do jeito despretensioso e calmo.
Dimtrix desejava o poder dos druidas, mas jamais seria um, seu pai não permitira que participasse dos estudos afirmando que não tinha a inteligência suficiente. Mas seu pai mal o conhecia, entre tantos filhos, só se importava com aqueles que tinham potencial para guerrear e Dimtrix não estava entre eles. - Dimi... não consigo nem ver a garota que escolheram para mim. - o irmão falou tentando sorrir com a boca branca segurando no braço dele.
Dimtrix sorriu, sabiam que os irmãos deveriam ter escolhido a mais asquerosa delas para a iniciação do caçula. Mas tanto fazia, pois sabia que, com tudo o que bebiam naquele dia e a ansiedade por impressionar a garota, prejudicavam o desempenho mesmo...
A festa começou assim que os druidas ficaram junto ao monte de Bel, uma elevação que havia nas terras da tribo e o local mais alto na região. As mulheres os cercaram de comida e então o tambor cessou e a música começou dando início às festividades.
Com o chifre cheio de hidromel nas mãos, Dimtrix observava as jovens que dançavam junto ao mastro amarrado com fitas coloridas e ofereciam sua fertilidade aos deuses. Ele ainda não fertilizara ninguém e isso era mais um motivo para o escárnio dos homens mais velhos, mas estava certo de que neste Beltane iria acontecer. Afastou-se um pouco do pátio e se sentou junto às sombras das árvores, dali podia observar a todos sem que o vissem e aquilo lhe dava uma sensação de poder muito boa, como se ele fosse o senhor e aquelas pessoas seus servos. Um sonho de um jovem que ainda não encontrara seu lugar no mundo...
De seu posto de observação, Dimtrix olhou para Yvone. Tentava se lembrar de quantos verões ela tinha, talvez treze e já era bela, se chegasse a amadurecer seria a mais bela mulher da tribo. Ela estava sentada entre os druidas que lhe ofereciam algo para beber e ele tinha certeza de que não era hidromel. Conhecia algumas poções que deixavam as garotas mais dóceis, observara alguns rituais dos sacerdotes há alguns anos e vira a reação das jovens que eles levavam sistematicamente para provarem os preparados de ervas que faziam.
Soturno... era assim que a mãe o chamara pouco antes de morrer. Estranho... era assim que seus parentes o consideravam, menos Arkell, que parecia admirá-lo e respeitá-lo. Poderoso... era assim que ele mesmo se chamava e sabia que seu dia chegaria, pois não só de verão era feito o tempo, não só de força era forjado um guerreiro, não só de sangue era talhado um trono...
Quando a tarde chegou todos pareciam embriagados e mal podiam conter a vontade de formar os pares e se enfiarem nas cabanas para o ritual da fertilidade ser consumado. Esperavam até impacientes o sacrifício e não viam a dor e o medo nos olhos claros de Yvone, que iria ser entregue ao fogo de Bel.
Então todos começaram a passar pela garota que fora colocada de pé pelos sacerdotes e parecia oscilar conforme o vento soprava. Flores, frutas, pequenos animais e vasilhas com comida e sementes eram depositadas diante dela para que levasse ao poderoso Bellenos os pedidos e desejos dos membros da tribo.
Arkell pegou nas mãos de Yvone e as beijou várias vezes. Ela mal se mexia e seus olhos pareciam já estar no outro mundo. Dimtrix desejou conhecer o que se passava na cabeça dela naquele momento, enxergar o que ela via, conhecer seus temores e seus sonhos. Talvez encontrar neles a face de Bel. Dimtrix se aproximou dela e pegou em suas mãos. Estavam frias como se o corpo já estivesse morto. Olhou dentro dos olhos azuis dela vasculhando seu espírito e, aproximando-se, falou perto de seu ouvido:
- Quero entrar no outro mundo com você, Yvone... deixe-me ver o que vê, encontrar os deuses e os seres do mundo inferior, a dor e o sofrimento que seu espírito vai encontrar e olhar para Bellenos cara a cara. - então se afastou e viu duas lágrimas que desceram pelo rosto dela e a garota começou a gritar...
- Amaldiçoado seja! - seu irmão Ayon gritou e o pegou pela túnica jogando-o violentamente no chão. Todos olhavam espantados para a cena, enquanto a jovem Yvone gritava como se já estivesse queimando.
Dimtrix sabia que devia estar assustado pelo castigo que receberia, mas estava fascinado e os gritos de Yvone aumentavam a sensação de poder que sentia. Ele ouviu Alistair praguejar e se aproximar, então saiu correndo para o meio das árvores embalado pelos gritos de dor e desespero de sua bela prima.
Escondido entre as árvores, ele viu quando as fogueiras foram acesas e as tochas iluminaram todo o pátio. Os gritos de Yvone haviam se tornado apenas um fraco balbuciar, provavelmente os druidas tinham-na forçado a tomar alguma poção. Não queria pensar na punição que receberia, seu irmão certamente comandaria o chicote que arrancaria a pele de suas costas, mas não se importava, ele saboreara o outro mundo através do sofrimento de Yvone.
Ao mesmo tempo em que ouvia a invocação dos druidas, o silêncio da tribo e o choro baixo de Yvone que chegou a pedir para que a libertassem, Dimtrix ouviu o que parecia o trotar de vários cavalos que vinha de trás dele. Não poderiam ser membros da tribo vizinha. A celebração do Beltane era realizada por todas as tribos e era um dos raros momentos de paz que desfrutavam sem a preocupação de um ataque. Ninguém ousava desafiar o grande deus Bellenos.
Yvone queimava e gritava amarrada ao poste onde estavam amarradas as fitas coloridas e foi então que os cavalos, montados por homens usando armaduras brilhantes apareceram como demônios saídos do reino dos mortos, com seus elmos emplumados e as espadas brilhantes traçando círculos no ar. Não era preciso entender a língua para saber que os estrangeiros exigiam a terra.
Dimtrix pensou que estaria a salvo escondido entre as árvores, mas uma mão forte o puxou pela túnica e o arrastou como se fosse um javali caçado na direção do pátio onde tudo se transformara numa grande fogueira. Bellenos havia exigido mais naquele Beltane...
Gostaram? =)
Não deixem de registrar sua opinião, tá?
Beijos!

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Promoção: Paganus no Hallowen.

Olá!!
Querem concorrer a um exemplar do livro Paganus neste Halloween? Para participar siga este blog (se já não estiver seguindo, claro, rs) e se manifeste respondendo a esse post.
O sorteio será realizado dia 01/11 e o sortudo, ou sortuda, ganhará um exemplar de Paganus autografado e marcadores. ;)
Quer dobrar a chance de ganhar?
Comente o post na página do face: http://www.facebook.com/Simonemania
Boa sorte! =)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Conto: Aprender para dominar.

Olá!!
Hoje, trago para vocês outro conto meu que foi publicado na antologia Draculea, o livro secreto dos vampiros em 2009: Aprender para Dominar.
Aprender para dominar. Ela lambe os lábios rubros e lascivos lentamente. Degusta o néctar agridoce que há poucos segundos penetrava-lhe o corpo, fazendo-a extasiar-se e gemer de puro prazer. Suspira e fecha os olhos lentamente. Os cílios castanhos velando os olhos que até então se coloriam de vermelho e eram capazes de aprisionar, de render, de dominar e de levar à morte a deliciosa vítima. Lentamente ela puxa, através das pernas longas, macias e pálidas, a calcinha. Apenas alçando ligeiramente o corpo sobre os lençóis de linho. Preguiçosamente se senta e passa o vestido cor de rosa pela cabeça. As saias rodadas roçam na pele gélida e rígida do corpo ao lado. Levanta-se, erguendo os braços num espreguiçar sensual e o vestido desliza até atingir o local exato onde deverá ser amarrado. As fitas pendentes são violetas e tocam, como a um cacho de uvas delicado, a pele cálida e branca das costas tentadoras.
- Pode amarrar para mim, por favor, querido? – ela sorri como se fosse simples o ato de atar aquelas fitas e pressioná-las contra a pele de seda, sem que todo o corpo de um pobre mortal não tremesse completamente.
Ela levanta os cabelos cor de cobre que até então caíam em suaves cachos sobre as costas desnudas, expondo um pedaço de tentadora carne doce do pescoço delgado.
Os passos inseguros e o corpo trêmulo dele levam-no da poltrona onde estivera encerrado como observador até a tarefa ao mesmo tempo excruciante e deleitosa. Ele segura as fitas violeta e as começa a puxar, primeiro com timidez e delicadeza, depois com avidez e força. Ela leva a mão em direção aos seios túrgidos e ajeita o vestido exibindo o colo que por si só poderia levar um homem à loucura. Então solta os cabelos que roçam com displicência, mas queimando intencionalmente as mãos do afortunado e ele geme de prazer antes de cruzar as fitas no nó que selará momentaneamente aquele templo ao prazer e à luxúria. - Obrigada... – ela se vira e passa um dos dedos delicados pelo rosto pálido e trêmulo do encantado mortal que mal consegue piscar. – Amanhã lhe ensinarei mais... – a voz doce e musical dança por seus ouvidos e ele não consegue proferir palavra alguma enquanto a vê se afastar como se adentrasse entre as brumas perfumadas do campo.
Ele sai do fétido hotel, deixando atrás de si, sem remorso, o corpo do objeto da experiência sobrenatural. Já em seu pequeno esconderijo pensa se não estivera usando ópio demasiadamente nos últimos dias. Deita-se na esperança vã de não sonhar...
Um baque surdo de porta o desperta com um salto. No colo o caderno no qual anotara suas últimas descobertas e que exibia manchas que a pena deixara sobre o papel. Como que por instinto, ele passa a mão pelo pescoço para conferir-lhe a integridade e suspira com enorme alívio. Passa a mão vigorosamente pelo rosto, mal percebendo que deixa na pele marcas da tinta vermelha com a qual escrevia. Fecha o caderno onde se lê na primeira página: Aprender para dominar.
O título, provisório e tosco, não traduzia a maravilha daquela aprendizagem. Levanta-se e se dirige à bacia de louça com água fria e joga em seu rosto um pouco de lucidez. Mirando-se no espelho pensa na descoberta mais recente. Ela nunca se olha no espelho. Embora achasse que tamanha beleza não seria refletida à altura, sabia como as mulheres adoravam aquela peça encantada que ela desdenhava.
Tira a camisa jogando-a sobre a cama e recorda de outra descoberta importante. Não a deixe tocá-lo por um segundo sequer, com as mãos delicadas, com seus dedos longos. Havia constatado que após o toque de seda, perdiam-se os argumentos, a fala, a coerência, principalmente se os dedos deslizassem pelo peito e subissem suavemente até o pescoço, como ondas delicadas de prazer que tiravam a lucidez de qualquer mortal que tivesse uma gota de sangue correndo dentro de seu corpo. O toque aprisiona, amortecendo os sentidos, tornando os membros letárgicos e entregues.
Ele coloca uma camisa limpa e a abotoa com impaciência. Olha-se no espelho e encontra marcas de ausência de sono sob seus olhos. Pensa em outro detalhe que conhecera. Não a olhe nos olhos. Nunca. Pois depois de tal contato, perderá a noção de espaço e de tempo. Será consumido pelo brilho de brasas que prometem prazer incomensurável e inimaginável. Os olhos encerram os sentidos que ainda pudessem estar ativos após o toque. E então só se enxergarão imagens luxuriosas a começar por desnudar totalmente o corpo curvilíneo.
Passa a mão pelos cabelos ajeitando-os presos sob a nuca. Abre a cortina e os raios de sol cruzam os vidros da janela desenhando linhas amarelas pelo quarto. Ele então suspira e pensa em outra anotação que fizera. Ela nunca sai ao sol. Pensou que talvez tentasse preservar a alvinitente pele. E até concordava que seria um ato criminoso macular aquelas faces com algum tipo de rubor. Ela saía assim que a lua despontava, o que conferia um brilho raro àquela aparência etérea e irresistível de anjo.
Pega o caderno fechado e o encerra numa capa de couro escurecida, depositando-o debaixo do braço tal qual uma muleta que possibilita o caminhar seguro ao claudicante. Fecha a porta e pensa em seus escritos. Não a convide para entrar em sua casa. Era importante saber que se abrisse as portas da entrada de sua casa, estava abrindo as janelas para sua alma e a depositando entre lábios macios e ávidos. Sai para a rua movimentada. As carruagens passam com sons angustiantes sobre o cascalho, provocando um latejar incômodo na cabeça. Caminha pelo calçamento sujo e úmido. Pensa no detalhe do caminhar. Ela caminha como se seus pés não tocassem o chão e quando percebemos já está a nos encurralar. Não deixa escapatória, fazendo isso com a mesma suavidade com que uma pena que se solta do pássaro desliza para o chão. Como se uma dança lenta e sensual ocorresse sem que pudéssemos participar por desconhecer os passos.
Entra no bar e está sedento, seus lábios estão ressequidos e ávidos por um líquido que reconforte. Uma taça elegante é depositada diante dele sobre o balcão. Os lábios prevêem o gosto do néctar. Então, lembra-se de uma das aprendizagens mais importantes. Não deixe que os lábios macios, generosos e repletos de pecado e promessas se aproximem. Se aqueles lábios úmidos e cálidos se aproximam de seus ouvidos, proferem palavras doces que provocam a sensação de flutuar, um pulsar exagerado do coração e uma sensação latejante em nossa intimidade, que antecipa um prazer deleitoso. A sensação obriga ao escolhido fechar os olhos, entreabrir os lábios em busca da fonte prometida e jogar a cabeça para trás como que na possibilidade de atingir o céu... e então a dica mais valiosa e vital deve ser seguida. Não a deixe encostar os lábios úmidos, quentes e sequiosos em seu pescoço. Nunca. Ali, no pulsar de sua energia, na ilustração de seu desejo é que se concentra a fonte de prazer para ela. É através da carne firme e latejante de seu pescoço que ela o domina completamente. Ela o toma para si, primeiro com um leve roçar dos lábios, como que para degustar o buquê e avaliar a qualidade do que você tem a oferecer, depois para, ao abrir os lábios, exibir dentes perfeitamente brancos e longos, capazes de penetrar-lhe e lhe tomar a energia, de sugar-lhe as vontades, de controlar o bater de seu coração. Enquanto os lábios vigorosos sugam-lhe o elixir da vida, a encantada vítima parece não sentir dor, não ter pensamentos ou vontades. Não resiste em favor do êxtase.
De volta à rua, dirige-se à casa de seu empregador. Bate à porta pintada de vermelho, diante dela um crucifixo de bronze e uma coroa trançada de dentes de alho. Ele sorri. Pensando em como ela riria com deleite daqueles adornos. Ninguém atende. Ele empurra o embrulho com o caderno para dentro da casa através da portinhola. Vira as costas e volta para a rua. Espera que suas descobertas ajudem ao velho Abraham a escrever seu livro ou a se defender do perigo que acredita rondar pelas ruelas estreitas da cidade. Sorri. Precisa ir para casa. Tem um encontro ao despontar da lua com uma dama de vestido cor de rosa. Já abrira a porta para ela, já a olhara nos olhos, já a deixara tocá-lo, já ouvira as palavras de mel... Ela prometera que ele encontraria o prazer sobre o qual não haveria descrições possíveis. Estava ansioso e se lembrou da última dica que escrevera. Não se apaixone por ela...